Antônio Alves de Carvalho, por
solicitação da Associação Cultural Joaquim Gonçalves Ledo, está
empenhado no projeto que visa a recuperação deste Patrimônio
Histórico e Cultural do bairro de São Cristóvão, no Rio de
Janeiro. Veja abaixo os dados completos sobre este patrimônio no
excelente trabalho do escritor e jornalista Júlio Nobre, e mantenha o mouse sobre as
miniaturas das fotos ao lado para vê-las ampliadas.
RESUMO HISTÓRICO
DA
PARÓQUIA DE SÃO JANUÁRIO
E SANTO AGOSTINHO
PARTE 1 - HISTÓRICO
O ano de 1855, marca a fundação da
Irmandade Religiosa de Nossa Senhora da Conceição e das Dores , um
movimento devocional que seria o grande responsável pela existência da
atual Igreja Matriz de São Januário e Santo Agostinho.
Esta por sua vez, teve como embrião a Capela de Nossa Senhora da
Conceição e Das Dores, erigida em 1879 em terreno próprio na Rua São
Januário (hoje nº 233) nos limites dos bairros de São Cristóvão e
Vasco da Gama, na Cidade do Rio de Janeiro.
A Rua São Januário ficou conhecida pelo nome, devido a uma grande
colônia italiana que se estabelecera nas imediações e que tinha por
"São Gennaro", Padroeiro da Cidade de Nápoles, Itália, uma
forte e sindevoção.
Essa rua tem início no Largo da Cancela e termina no Estádio do Club
de Regatas Vasco da Gama que por vontade popular leva o nome do Santo.
Na Segunda década do século XX (no ano de 1921 para ser mais exato), a
Capela entrou em decadência pelo abandono, devido ao desabamento do seu
teto. Posta abaixo, foi reconstruída em dimensões bem menores da
original.
Um ano depois da Revolução de 1930, durante o primeiro governo de
Getúlio Vargas, a Capela e seu terreno foram doados a Mitra que por sua
vez os transferiram de forma "ad perpetum" para os Padres
Agostinianos Recoletos (Ordem Religiosa inspirada nos ideais do
Filósofo, Bispo Santo Agostinho que detêm o título honorífico de
Doutor da Igreja). Na oportunidade, estes frades residiam e prestavam
serviços religiosos na Igreja de Santo André na Rua Bela. A
negociação contou com a participação decisiva do Comendador Rainho
que presidia a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição e Das Dores.
No dia 8 de Setembro de 1934, a Paróquia foi oficializada pelo Cardeal
D. Sebastião Leme e no dia 16, Frei Julião Ortiz tomou posse como o
primeiro Pároco da nova Igreja.
Frei Julião ao que tudo indica deve ter deixado uma forte dose de
entusiasmo durante o seu período como Pároco, tanto que o seu
sucessor, Frei José Osés adquiriu um terreno ao lado da Igreja (hoje
nº 249) e após colocar abaixo a Capela, iniciou em 1940 a construção
da Igreja Matriz que seria inaugurada em novembro de 1947 com a Benção
do Cardeal Sebastião Leme.
Nossa Senhora da Imaculada Conceição e Das Dores foi mantida como
Padroeira em homenagem a Irmandade. São Januário em homenagem a
região e Santo Agostinho por ser o inspirador da regra e vida dos
Padres que governam a Igreja Matriz.
Ainda em 1947, a Casa Paroquial foi demolida para ser reconstruída no
ano seguinte. As novas instalações passaram a abrigar a Cúria da
província de São Tomáz de Vila Nova que ali permaneceria até 1960.
Em 1950, era adquirido um órgão modelo 3-B da Hamond (fabricante
alemã de Órgãos, marca pioneira nas igrejas brasileiras), que se
constitui de uma pedaleira de 4 oitavas e dois teclados além de
chaves-registros responsáveis por uma sonoridade própria, imitando com
perfeição o sistema de tubulação (pipe organ) proporcionando uma
sonoridade própria e adequada para o ambiente. Em 1994, sob a direção
do Pe. Frei Laurindo Côco, este instrumento foi transistorizado. Hoje,
provavelmente devido ao uso inadequado, encontra-se desativado e a
Paróquia não possui recursos para a sua reforma.
No dia 27 de Janeiro de 1952, o Cardeal D. Jaime Câmara benzeu
solenemente a Igreja Matriz e também a Pedra Fundamental da Escola
Paroquial erguida aos fundos da Igreja (um prédio de dois andares: na
parte superior, seis salas de aulas. Na parte inferior, um Salão
destinado a festejos, Palestras, Encontros e outras atividades afins,
reformado em 1998).
Em 59, o então Pároco Frei Félix Pardo retomaria as obras do templo
com a reforma do Presbitério com o altar mor e piso feitos todo em
mármore, inaugurado por Dom Hélder Câmara no dia 7 de setembro. No
ano seguinte, Frei Félix contrata o Pintor baiano José Lima para
decorar o interior do templo. O resultado foi magnífico. Os quadros,
pinturas e arabescos de Lima, cuja a técnica aliada a uma profunda
sensibilidade falam por si mesmo. Em 1967, sendo Pároco o Frei Simón
Azpeitia, foram reformadas a parte frontal da Igreja e a casa Paroquial.
Entre os anos de 1975 e 1978, o Pároco Frei Estevão Montez promoveu
melhoramentos na Casa Paroquial, tais como a construção de banheiros,
ar condicionado e novas instalações de rede elétrica, sendo esta a
derradeira grande obra desta Igreja.
Em 1992 teve a sua torre interditada. O Sino feito de bronze esteve
prestes a ruir.
A falta de conservação por pouco também não ocasionou uma vítima
fatal no ano seguinte: um grande lustre tendo os seus sustentadores
corroídos, despencou do teto atingindo o então Pároco Frei Alaôr dos
Santos. Os demais lustres foram retirados por medida de segurança e
nunca mais foram repostos.
Hoje, a Paróquia dirigida pelo ex-Provincial Frei Enéas Berillique que
assumiu a função de Pároco em 14 de maio de 2000, recentemente
restaurou o seu telhado. Mesmo diante de grandes dificuldades, Frei
Enéas mantêm o otimismo e espera restaurar totalmente a Igreja Matriz
de São Januário e Santo Agostinho, restabelecendo o seu brilho de
outrora.
PARTE 2 - DESCRIÇÃO TEMÁTICA DA
OBRA DO ARTISTA JOSÉ LIMA NO INTERIOR DA IGREJA
José Lima era parente do Arcebispo de
Salvador-Bahia nos anos de 1960. Conhecedor dos valores da religião
católica romana da qual era seguidor, tornou-se mais do que um mero
repetidor ou copista de imagens, pois sabia exatamente o que pintava e
porque pintava. Segundo os testemunhos dos Frades Daniel e José Casado
(ambos falecidos) e da cantora Aloysia de Assis, era um homem de
temperamento pacato. Quieto e silencioso, dedicado e compenetrado ao seu
trabalho. Segundo essas pessoas com as quais tive contato, toda a
decoração da Igreja foi feita por contato direto nas paredes pelo
próprio Artista que a fez sozinho sem auxiliares em pouco mais de um
ano.
Nas paredes laterais as treze estações do Sagrado Caminho, a "Via
Sacra" do Redentor que retrata os últimos passos de Jesus desde a
sua condenação perante o Procurador Romano Pôncio Pilatos até o
túmulo.
Acima da via Sacra, encontram-se pintadas as imagens dos santos de maior
devoção por parte dos paroquianos em toda a sua trajetória e outros
pertencentes à Ordem de Santo Agostinho: São Bartolomeu (Apóstolo),
Santa Maria Gorete, Santo Antônio (Primeiro Teólogo da Ordem dos
Frades Menores fundada por São Francisco de Assis mas que originalmente
pertenceu aos Cônegos Regulares de Santo Agostinho), Santa Luzia (
Protetora dos Olhos), São Francisco Xavier (Santo muito popular da
Sagrada Cia de Jesus "Jesuítas"), São Tarcísio
(representante da devoção e do amor pela Santa Eucaristia, mártir
ainda menino), Santa Inês, Santa Terezinha (inspiração dos
contemplativos), São João Evangelista (autor do Quarto Evangelho, o
mais novo dos Apóstolos, aquele que acompanhou Jesus até a sua morte
na cruz e aquele que no próprio Evangelho é distinguido de forma
especial pelo Mestre: "Aquele que Jesus amava"), São
Cristóvão (Santo forte e de grande estatura que sobre os ombros
transportava os viajantes de uma margem a outra do Rio Jordão; diz a
lenda que transportou o Menino Jesus; Santo que deu nome ao bairro onde
a Igreja se localiza), Santa Isabel de Portugal (uma alusão a colônia
portuguesa, a mais participativa e fiel da Paróquia desde a Irmandade
de Nossa Senhora da Conceição e das Dores), São João Batista (O
Arauto do Messias, decapitado a mando de Herodes o Grande, e que vivia
em austeridade no deserto e cobria-se com pele de carneiro) e Santa Rosa
de Lima. Brasões das Províncias de São José, Candelária, Nossa
Senhora da Consolação (Padroeira da Ordem Agostiniana), Tríplice
Coroa do Poder do Papa e Brasão da Ordem Agostiniana. 
No teto: São Nicolau de Torentino, São Vicente de Paula (cuja
Paróquia possui quatro confrarias de sua congregação), São
Sebastião (Padroeiro da Cidade do Rio de Janeiro, martirizado pelo
Imperador Dioclesiano por recusar-se a renegar a fé cristã) e Nossa
Senhora de Fátima (a Virgem Maria que apareceu na Cova da Iria, em
Portugal, de grande veneração pela Colônia Portuguesa a
"Fidelíssima" colônia da Paróquia). A Sagrada Família;
São Tomáz de Vila Nova (Agostiniano), a Sagrada Família e uma
retratação dos Padres que serviam a Paróquia na época: Frei Félix
(Pároco), Frei João Batista, Frei João Goiano junto com os Irmãos
Leigos: Leopoldo e João Altarreros e o Organista Oficial da Paróquia:
Moacir Maciel (que anos depois comporia o Hino "A Benção João de
Deus" para recepcionar o Papa João Paulo II em sua primeira visita
ao Brasil) ajoelhados diante do Papa João XXIII. Santa Rita de Cássia.
No teto que antecede ao teto de Presbitério: Os principais momentos da
vida de São José (Padroeiro dos Irmãos e Padres de Ordens
Religiosas); O Casamento com a Virgem Maria, São José e o Menino Jesus
e a Morte de São José. Na parte frontal a esta: Natividade de Jesus,
Jesus o Bom Pastor, A descida da Cruz, São Pedro afundando nas águas e
salvo por Jesus, Aparição de Jesus a Santa Maria Margarida e a Santa
Cecília.
Nas paredes laterais dos altares laterais: Os Evangelistas Mateus (e sua
representação no Leão), Marcos (e sua representação o Anjo), São
João (e sua representação a Águia) e São Lucas (e sua
representação: o Boi). Abaixo de Lucas, uma pintura de proporções
maiores de São Paulo (Autor das Epístolas e que deu uma nova
identidade ao Cristianismo, organizador das primeiras comunidades fora
da Palestina); abaixo de São Mateus (Santa Ana, Mãe da Virgem Maria),
abaixo de São João, São Pedro, o primeiro Chefe da Igreja (o primeiro
da linhagem dos Papas) e São João Batista Villaney (Padroeiro dos
Padres).
Teto: Parte frontal do Presbítero: Sagrado Coração de Jesus e Maria,
São Nicolau de Torentino, Santo Antonio, Virgem Maria e o Menino Jesus,
Jesus desde o seu nascimento até a coroação de Nossa Senhora no céu:
o Rosário e os seus Quinze Mistérios (Gozosos, Dolorosos e Gloriosos).
Santa Mônica, Santo Agostinho.
Presbitério ou Altar Mor: Paredes Laterais: Triunfo de Santo Agostinho,
o Cordeiro de Deus, o Peixe e o Pão, o Martírio de São Januário, a
Hóstia com os ideogramas Sagrados IHS e o Pelicano, símbolo primaz dos
Cristãos com a fêmea arrancando a própria carne para servir aos
filhotes.
Teto do Presbitério: A Coroação de Nossa Senhora (pelas Três Pessoas
de Deus). Réplica perfeita nas mesmas proporções da Capela Cistina do
Vaticano.
Salões laterais: Bodas de São José; Quadros de Dom Jaime (Arcebisbo
do Rio na ocasião da oficialização da Igreja Matriz) e o Papa João
XXIII (o Papa da época).
Coro: Tubulações de Órgão destacando Santa Cecília, Padroeira dos
Músicos e Mártir.
Acima do Batistério: Nossa Senhora da Conceição Aparecida
Vitrais: Altar Mor: Santa Juliana (Agostiniana) e o Papa Urbano.
Vitrais Coro: São Tomaz de Vilanova, Nossa Senhora da Conceição,
Santo Agostinho, São Januário, São José e o Menino Jesus e São
Sebastião,
Vitrais Laterais: Jesus O Bom Pastor, Santo Agostinho, Santa Mônica,
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e Santa Cecília.
Vitral Batistério: O Batismo de Jesus (Jesus e S. João Batista).
3 - IMAGENS EXPOSTAS NO TEMPLO:
Cristo Crucificado (1 x 0,80 m) e outro acima do Sacrário.
Batistério: Nossa Senhora das Dores, São Vicente de Paula, São Judas
Tadeu, São Jorge e Santa Terezinha.
Altar Mor, laterais: São Januário e Santo Agostinho.
Altar Mor, topo: Nossa Senhora da Imaculada Conceição.
Altar Mor, redoma: O Senhor Morto.
Altares Laterais: 1- São José, Sagrado Coração de Jesus, Nossa
Senhora de Fátima e São Tarcísio.
2- Santa Mônica, Nossa Senhora da Consolação e Santa Rita de Cássia.
OBS: Recentemente foram entronizadas as Imagens de Nossa Senhora e São
Tiago de Compostella.
4 - FATO OU LENDA QUE TORNOU-SE
TRADIÇÃO.
Acima dos portais da Igreja existe uma
imagem de Nossa Senhora da Conceição, oriunda da antiga Capela. Dizem
que durante a construção da Matriz quando a Capela foi colocada
abaixo, sempre surgiam problemas que impediam o término da obra. Foi
então que um dos fiéis sugeriu ao Pároco que a imagem fosse
recolocada nos portais e não no Altar Mor. Feito isso, as obras
seguiram normalmente e foram concluídas sem problemas. Para o altar,
foi mandado fazer uma outra imagem de Nossa Senhora. A original
permanece no mesmo lugar exposta ao tempo...
5 - BREVE RESUMO DA VIDA DO PADROEIRO
SÃO JANUÁRIO
De origem nobre, São Januário viveu no
fim do Séc. III e tornou-se Bispo de Benevento, cidade próxima a
Nápoles, Itália. Foi um Clérigo Zeloso e Bondoso e, acima de tudo
fiel a Deus, apesar das terríveis perseguições aos cristãos por
parte do Imperador Dioclesiano.
Preso com seu Diácono, Sósio e mais alguns membros do Clero, São
Januário foi levado à cidade de Pozzuoli e condenado a morrer devorado
pelos leões. Porém ele e seus companheiros saíram ilesos e os leões
em nenhum momento os ameaçaram.
Atingido em sua moral, o Imperador manda que São Januário e seus
Companheiros sejam decapitados. Os soldados obedecem e permitem que uma
freira recolha piedosamente o sangue em uma ampola (segundo o costume da
época as vítimas por decapitação tinham essas ampolas colocadas
sobre os seus túmulos). A Freira dirigiu-se a Nápoles não se sabe por
qual motivo e apresentou ao Bispo local a ampola com o sangue do
Mártir. Naquele momento o sangue coagulado se liqüefez.
Convencido do Milagre, o Bispo de Nápoles mandou transladar o corpo do
Santo para a Colina de Capodimonte e mais tarde para a Catedral de
Nápoles.
O sangue de São Januário se liqüefaz sempre nos meses de maio (mês
em que foi transferido o seu corpo para Nápoles) e Setembro (mês do
seu Martírio), quando as manchas deixadas na pedra em que foi
decapitado se reavivam e o sangue se liqüefaz sobre a mesma pedra.
Até os dias de hoje, cientistas renomados não encontraram uma
explicação plausível para o fato. Alheios a tudo isso, milhares de
fiéis impulsionados pela fé, visitam todos os anos a tumba de São
Januário na Catedral de Nápoles.
4 - OS FESTEJOS DE SÃO JANUÁRIO
Em 1993, o Pe. Frei Laurindo Côco,
resolveu dar um destaque todo especial a Festa de São Januário com
atrações musicais e apresentação dos grupos folclóricos de Portugal
e Itália, Aquela estaria destinada a ser a maior festa dos últimos
cinqüenta anos do bairro.
Infelizmente, os sucessores do Frei Laurindo não deram prosseguimento a
iniciativa e com homenagens modestas, o mês do Padroeiro passou quase
pelo um total esquecimento.
Em 2000, Frei Enéas resolveu reeditar a festa, quase nos mesmos moldes
da que a organizada por Frei Laurindo, promovendo atrações musicais e
apresentação de grupos folclóricos procurando desta vez uma
integração maior entre a música brasileira, portuguesa e italiana,
como o grande motivador para integração das colônias. A festa foi um
sucesso, embora não tenha conseguido superar a de 1993, com destaque
para a noite portuguesa.
Em 2001, repetiu-se a festa, só que desta vez dando-se uma ênfase
maior a colônia italiana que não correspondeu.
Para 2002, Frei Enéas tentará reorganizar a Festa com uma
participação maior de atrações e uma divulgação ostensiva na
mídia. O objetivo é a recuperação de toda a área da Igreja e o
resgate dos áureos tempos da Matriz de São Januário e Santo Agostinho
que pretende ainda este ano voltar aos seus melhores dias.
Pesquisa de Julio Nobre (Jornalista Reg. MTb nº 18826 e Escritor Matric. Nº 1365 SEERJ).
Fontes: Frei Enéas Berilli, Frei
Pedro Olavo Queiroz Macedo, Pe. Félix Pardo, Aloysia de Assis e livros
e apontamentos da Igreja Matriz de São Januário e Santo Agostinho. |
|